Massagem nos bebês 15

                                                                                                                  Frederick  Leboyer

Estamos na Índia. 

São as palavras de Chuang-Tsé, no entanto, que retornam ao meu espírito. 

Tanto é verdade que a sabedoria não conhece fronteiras. 

Ele diz: "Um dia o duque de Huan estava para começar a ler num dos aposentos superiores do palácio, enquanto que, embaixo, Pien, o carpinteiro que cuidava das charretes, trabalhava numa roda. Pondo de lado o martelo, o carpinteiro subiu e veio dizer ao duque:

- O que é que o senhor vai ler? 

- As palavras dos santos, respondeu o duque. 

- Santos... Eles ainda estão vivos? 

- Não, respondeu o duque. Eles estão mortos. 

- Então, disse o carpinteiro, o senhor perde tempo. Tudo o que o senhor puder encontrar nos livros não passará de lixo dos Anciãos. 

- Eu leio, replicou o duque. E não é um carpinteiro que vai me dar conselho! Na minha grande bondade, eu ordeno que te expliques. Senão,serás levado à morte como preço a pagar por tua falta de respeito. 

- Veja, disse o carpinteiro, o que o ofício ensinou ao seu servo.Quando eu faço uma roda demoradamente, o trabalho me parece agradável. Mas não é consistente. Se trabalhar rápido, ao contrário, a tarefa será cansativa. E malfeita! Não se deve ir nem rápido, nem devagar! É necessário, de fato, encontrar o ritmo adequado. Que convém à mão. E que corresponde ao coração.Há nisso qualquer coisa que as palavras não saberiam expressar. Que eu não soube fazer meu filho compreender. E que ele, infelizmente, não conseguiu aprender. De sorte que, apesar dos setenta anos, continuo ainda fazendo minhas rodas. O que os Anciãos não puderam transmitir está completamente morto. E nos livros você só encontrará lixo".

Foi em Calcutá que encontrei Shantala. Certamente, a boa estrela havia guia-do os meus passos. 

Calcutá... 

O nome faz estremecer. A mais abandonada de todas as cidades desta Índia que é considerada tão miserável. Calcutá, lugar de miséria, para não dizer de horror, onde se amontoa, sem ordem, desmedida população, perseguida pela guerra, atraída pelo brilho ilusório da "cidade" ou fugida das mil e uma calamidades que, nesse país, mais que em outra parte, faz a árdua trama Calcutá, no passado a gloriosa capital de Bengala, cidade resplandescente e invejada, agora desfigurada, odiosa, arruinada por uma dessas reviravoltas do destino que, com tanta freqüência, vemos nos acontecimentos deste mundo. 

Em Calcutá, sim, ou, com mais exatidão, em Pilkhana, uma dessas favelas sórdidas que nos últimos anos se multiplicaram com o afluxo de refugiados. A Seva Sangha Samiti, associação de caridade parecida com a Frères des Hommes, abriu nesse lugar um escritório que testemunhava como a paciência e o amor podem triunfar no coração da mais absoluta privação. Shantala fora recolhida com os dois filhos. E ela ajudava, na medida de suas possibilidades (há alguns anos ficara completamente paralítica). Foi lá que, numa bela manhã (como era bela!), ensolarada, resplandescente, encontrei Shantala sentada no chão a massagear o bebê.

Glória da luz e milagres do amor, quem diria! 

E assim, de repente, em plena sordidez, foi-me dado contemplar um espetáculo da mais pura beleza!

Fiquei mudo. 

Sorvia, em silêncio, o que presenciava. 

Parecia um ritual, tão grave e investido de extraordinária dignidade era o ato. Parecia um balé, devido a tanta harmonia e ritmo exato, embora de extrema lentidão. E, como o amor, possuía seu tanto de abandono e ternura.

Fiquei deslumbrado, confuso. 

O horror das ruas sórdidas que percorrera, dos pardieiros avistados, havia sumido por completo. 

Eu estava cego de tanta beleza e amor. 

Na verdade, o sol, numa explosão, fizera voar tudo em esplendor e iluminava a alegria por toda parte. 

De repente, compreendi Jó e sua paciência e como ele pudera permanecer silencioso em meio ao estrume. "E quem é você para pedir-me explicações?" E as palavras que toda a Índia conhece puseram-se a cantar:"E no lodo que o Vitus finca raízes, é nas águas turvas, pútridas que ele medra, irresistivelmente atraído por essa luz que ele desconhece, mas que pressente e que o estica e que o atrai e que o levanta e o obriga a elevar-se eque, de repente, ele encontra quando, ao chegar à superfície, supera. 

Agora, glorioso, ele se abre, desabrocha-se e, cego, ofusca a todos com seu indizível esplendor''.

Sim, fiquei mudo pela maravilha. 

E confuso pela profundidade da lição. 

E, de certo modo, constrangido por ter surpreendido essa troca.

Quando, depois que terminou e se deu conta de que eu estava ali, Shantala sorriu para mim, pedi-lhe, quase timidamente, permissão para vir fotografá-la. Ela me agradeceu surpresa. Assustada de me ver perder tempo com o que, para ela, não passava de simples tarefa diária. Com simplicidade e amizade (eu tivera a oportunidade de ajudá-la a alguns anos antes), ela aceitou. 

Voltei, então, no dia seguinte. E no outro dia. E em outros dias mais. De tanto que havia para ver e aprender. 

Embora parecesse tão simples. Tão justo. Tão verdadeiro.Verdadeiro. Na realidade, a verdade é inesgotável. Finalmente, certo dia fiz as fotografias. Como um pintor que tentasse captar no ar, surpreender, deter, capturar o inapreensível, o que se move, o fugidio segredo da beleza. E este segredo estava bem ali.

Feito, simplesmente, de amor e luz, de silêncio e gravidade.

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Beijos de luz
mirna