Massagem nos bebês 14

                                                                                                                   Frederick  Leboyer

Quando você vai começar? 

Nada de massagem propriamente dita antes que o bebê tenha um mês. É o que se diz no Sul da Índia, em Kerala, onde esta massagem foi primeiro ensinada. 

Mas, por outro lado, sabemos hoje da grande importância dos íntimos contatos corporais —prolongados e imediatos — entre a mãe e o seu bebê. Do mesmo modo, descobrimos que todos os mamíferos (e os humanos fazem parte dessa grande família) lambem com vigor os filhotes desde o nascimento. Na falta dessa massagem, com freqüência,os filhotes morrem. 

De modo que, entre ambos, é preciso, como sempre, encontrar ajusta medida. Digamos que, no começo, devemos tocar o bebê mais do que, propriamente falando, massageá-lo. Basta que as mãos se movimentem e percorram o seu corpo. Que ele se sinta "em contato". Naturalmente, não irá tocar a barriga enquanto a criança não tiver um mês. E, do mesmo modo, você esperará passar um mês para tocar o rosto. Com o decorrer dos dias, pouco a pouco a massagem tomará forma. Você se aproximará daquilo que lhe mostramos, deixando-se guiar pelas reações da criança. Que suas mãos, no começo, sejam leves. Ainda que não sejam carícias. E, pouco a pouco, deixe passar a força.

Isto não quer dizer "imprimir força"... 

A doçura, a calma não significam descuido ou apatia. E a energia fica mais livre de aspereza, de violência, de agressividade. Mais uma vez não se trata nem de carícia, nem de surra. A energia passa por você. E ela não é sua. E ela que a guia. Com a condição de você estar aberta e ser atenciosa. De algum modo, você é um instrumento. E essa força se comunicará melhor quanto mais distensa você estiver. Observe como as mãos de Shantala são livres ...

Por conseguinte, veja,sinta quanta força, inteligência e cuidado há nestas mãos.

Quem não pensaria tratar-se de umaluta? Quem não imaginaria que Shantala, num acesso de raiva, de loucura, não esteja para bater ou matar o bebê! Do amor ao ódio não há senão um passo. Do mesmo modo que só há um passo desta massagem para ... a velha surra! É a mesma coisa? Claro que não! A surra proporciona grande bem-estar ... em quem a dá. Enquanto que aqui ... Aqui o que há é uma luta, uma batalha. Mas trata-se de uma batalha de amor. Onde a fúria e a ternura são uma única coisa. Onde se ganha certa plenitude a medida que se dá.

De resto, que contraste entre o poder do movimento de Shantala, o poder de sua mão e o abandono, a distensão do corpo da criança!

Quanto tempo a massagem deve durar por dia? 

Quanto "tempo"? 

Eis aí nosso velho companheiro. Quando o bebê só tem alguns dias, não se trata bem de "massagem", mas simplesmente de carícias, de roçar a pele. E a sessão dura apenas alguns minutos. Ela vai aumentar à proporção que o bebê... cresça e entre na vida.

Dia a dia, as coisas se definem, ganham maior importância. E tempo. Como se você se familiarizasse e fosse ficando mais hábil. Sem dúvida você gostaria de exatidão. E que lhe dissessem como se se tratasse de mamadeiras: "Tantos minutos no primeiro dia. Depois você aumenta tantos minutos por dia. De sorte que, ao fim de uma semana, tantos minutos..." Isto seria muito "científico". Conseqüentemente, estaria perfeitamente bem na moda. Mas a vida não tem nada a ver com "esse tempo"! Mesmo que você queira conhecer o "tempo exato", será preciso esquecer por completo o relógio. Pois, pouco a pouco, o tempo consagrado à massagem vai aumentar e, quando a criança aproximar-se do primeiro mês, a sessão vai durar de 20 a 30 minutos.

Vejo-a sobressaltada: 

"Trinta minutos!" 

"Mas eu nunca vou ter esse tempo!" 

O tempo... mais uma vez, não se preocupe com isso. Ele virá. Lembre-se, no entanto, de que a massagem deve ser feita com muita lentidão. É com essa lentidão que se medirão a sua habilidade e a sua compreensão. E para se chegar a esse ponto, para fazer a sessão durar tanto, você deverá se transformar num entendido. 

Até que idade? 

Pelo menos nos quatro primeiros meses. De fato, é preciso massagear a criança enquanto ela não consegue se mudar de lugar. No dia em que já puder se virar, ficar de costas e, desse modo, distender bastante as costas e a coluna, você poderá parar.

De fato, para a felicidade tanto de um quanto do outro, nada impede de ir muito mais longe.

É preciso tempo para criar uma criança. 

De resto, como você teria ocupado esse tempo de outro modo? E, de fato, a quem você o dedicou? À criança? 

Desde o início, não foi a "você" que essa massagem transformou primeiro? 

Quem protestou: "Ai, minhas costas! Ai, meus rins!" Pois foi preciso ensiná-la de novo a sentar-se no chão. A ficar aí muito tempo. Conservando as costas retas sem tensão. Com graça. Em equilíbrio. Manter-se nesta difícil posição para você, os ombros livres, naturalmente livres(!) E as pernas, do mesmo modo, esticadas. Sem tensão. E, no entanto, sem dobrar os joelhos! Coisas tão simples para a criança de um ano. Mas que para você... 

Veja que, para libertar, é preciso que você mesma esteja livre.

Não podemos dar o que não temos. 

Libertar o que? Essa força que dorme ainda no corpo do bebê. Essa força pronta a despertar, florescer, fluir. Que se chama vida. E que se torna cada vez mais forte, mais rica em você à medida que você a doa.

Não foram somente as suas costas que protestaram. Não foram apenas elas que tiveram que reaprender. "Vejamos, primeiro, o peito... Ah, agora o braço. Primeiro... vejamos o livro... Ah, sim, começando do ombrinho,vamos até o punho..." Foi assim que, com esforço, você foi do livro à criança, da criança ao livro. Foi assim que os seus olhos erraram por aí. E também o seu espírito, da cabeça para as mãos, das mãos para a cabeça!... 

Até que, um dia, os momentos, por si mesmos, se ligaram.

Mesmo sem ter notado, as suas mãos, naturalmente, encontraram,reencontraram o caminho. O peito. O braço. O ventre e também as pernas. E também as costas. E também... Tudo se pôs a fluir. Entre os momentos, um elo. Evidente. Necessário. O livro foi esquecido. E a sua cabeça também! Um verdadeiro conhecimento está ali. Que não é um inútil amontoado de conhecimentos acumulados em seu cérebro. 

Mas que está ali. Em tudo. Em suas costas. Em suas mãos. Estas mãos que, portadoras de uma força estranha, agora seguem o caminho sozinhas, caminho esse que vem de bem mais longe que você.

Transformadas estão as mãos, hábeis, inteligentes. Delicadas e sensíveis. Animadas por um ritmo tão prudente quanto inevitável.

A massagem fez-se dança.

Sim, longe de ser simplesmente um dos cuidados que dedicamos ao bebê, esta massagem é uma arte. 

E, portanto, você precisará de um mestre. E dessas coisas que não se aprendem num livro. E esta arte é assim. Em que lugar encontrar um mestre, aqui no Ocidente, onde esta massagem é completamente desconhecida? 

Você pode ir a Calcutá, onde o acaso pôs Shantala em meu caminho. 

Mas será uma longa viagem.

Talvez você não venha a ter a minha sorte. Talvez você não a encontre. 

Além disso, você terá de encarar de frente um clima difícil. E as epidemias. E ficar. 

Pois que são coisas que não se ensinam num dia... 

E então? 

Felizmente, o mestre está aí. Como sempre. Tudo sempre está "aí". Bem à mão. Se soubermos olhar. 

Esse mestre, mais uma vez, é o bebê. 

É ele quem vai ensiná-la, instruí-la. Com uma única condição: você ser modesta. E bastante simples, bastante aberta para segui-lo. Se você puder duvidar compare apenas a docilidade dele com a sua! Compare as costas dele com as suas. 

Sim, deixe-se guiar por ele!

De resto, virá um dia em que a sua massagem, finalmente, emanará da fonte. 

Virá um dia em que, cada "tempo", de modo natural, simples e necessário, parecerá nascer do tempo precedente. Como os passos de uma dança. Então, atingida tal perfeição, onde estará você? Quem massageará? Quem será massageado? Quem guiará? Você? O bebê? Quem conduzirá o balé? Qualquer coisa... no interior. Que está ali. Que sempre esteve ali. Adormecida, porém. Qualquer coisa que está ali e que sabe. 

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